sábado, 28 de fevereiro de 2009

Vó

Eu tinha verdadeira paixão pela minha avó paterna. Éramos extremamente ligadas, sentia como se eu e ela fôssemos o que de fato significa a palavra família.

Quando eu nasci ela já era um pouco mais idosa, o corpo marcado por muitas perdas, olhos tristes de quem não espera muito da vida. Morava em Niterói, e não nos víamos com a frequência que eu desejava, mas quando ela vinha passar dias comigo, era como se o sol entrasse pela casa. Contava os minutos para vê-la, e absorvia cada um que desfrutava de sua companhia. Lembro que ela tinha o costume de tirar uma soneca de meia hora após o almoço, e esse tempinho era uma tortura para os meus poucos anos de cultivo de paciência. Ficava ao lado dela até que abrisse os olhos por vontade própria ou pelo cansaço de ter seu descanso tão insistentemente "secado".

Mas era assim, como se o sol me acompanhasse... E sei que para ela eu também era o astro-rei, sua única descendente a sobrevivê-la.

Só que eu cresci. A adolescência me apresentou a novas amizades, perspectivas, atividades. Já não tinha tanto tempo para ela... Jamais vou esquecer do verso de uma poesia que ela sempre recitava, e que me dava arrepios: "Se queres dar-me uma flor, faze-o agora."

Tenho comigo a impressão que não lhe dei essa flor tão merecida enquanto viveu. Mas ela está guardada aqui no meu coração, como gostaria de ter a chance de lhe entregar...

Vó, desculpa o atraso...


AGORA

Myrtes Mathias

Se queres dar-me uma flor faze-o antes que eu morra.

Se podes, hoje, fazer o milagre de um sorriso num rosto que chora, não coloques flores sobre tumbas:

Se queres dar-me uma flor, faze-o agora!

Se podes dar um lar ao orfãozinho, abrigo ao pobre que geme lá fora, não encolhas a mão - Deus está vendo.

Se podes dar uma flor, faze-o agora!

Se conheces o eterno caminho que leva ao templo onde a alegria mora, não guardes, egoísta, o teu segredo:

Se podes dar-me uma flor, faze-o agora!

Se podes dizer, em uma frase linda algo que faça a tristeza ir embora, dize-o enquanto posso agradecer sorrindo:

Se podes dar-me uma flor, faze-o agora!

Que farei eu, das orações, das flores, quando do mundo já não mais eu for?

Aos pés de Deus eu as terei tão lindas que não precisarei do teu amor!

Não esperes o instante da partida:

Se queres me fazer feliz, faze-me agora!

Para que chorar de remorso e de saudade?

Custa tão pouco a felicidade...

Selinho!

O extremo cansaço físico e mental resultantes da minha atual atividade de "cuidadora" vem embaçando minha mente, fazendo com que ela pareça um livro de páginas em branco. Além disso, a total falta de tempo me afastou de muitas de minhas rotinas, mas deixar o blog de lado é o que mais tem me entristecido. Mas sei que daqui a pouco tudo passará e estarei de volta cheia de gás.

Mesmo assim, ausente, recebi um carinho da lilly... Um afago virtual, que foi esse selinho lindo que já adicionei à página, "Prêmio Dardos".
Aqui vai a transcrição da transcrição de seu significado, "descaradamente" surrupiado da minha amiga :http://dreamlilly.blogspot.com/2009/02/recebi-um-selo.html

"O Premio Dardos é dado aos blogueiros que transmitem valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc. Que, em soma, demonstram sua criatividade, através do pensamento vivo que está, e permanece intacto, entre suas palavras."

Obrigada, lilly, você iluminou meu dia. Espero ser de fato merecedora.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Corações invisíveis


Pequena brincando com maquiagem:

- Mãe, você quer um pouco de maquiagem? Papai vai amar, não vai nem te conhecer. Vão sair coraçõezinhos da cabeça dele! Mas são invisíveis, não dá pra ver, não. Só na televisão.

Decepções


Todo dia temos que criar mecanismos para lidar com situações adversas. Aquelas que nos decepcionam tremendamente.

E o que é uma decepção? É qualquer atitude vinda de alguém de quem esperávamos algo diferente, algo que viesse de encontro a nossos anseios. Quando somos dotados de um grau um pouco maior de sensibilidade, isso pode machucar bastante.

Nem sempre é possível controlar sentimentos... Por mais que o cérebro comande e diga: "siga em frente!", às vezes o coração titubeia...

É preciso martelar a tecla de que não se deve esperar nada das pessoas, somente agradecer pelo bem recebido. Afinal, ninguém pode dar o que não tem.

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Sol mal-humorado



Estou vivendo na prática a verdade de que realmente é a cabeça que manda em tudo.

Tenho cuidado da minha mãe e das crianças, e o trabalho é mesmo braçal. Fico responsável por toda a parte de higiene, medicamentos, alimentação e tudo o mais das três. Neste período de carnaval também repito os exercícios recomendados pela fisioterapeuta, que só poderá vir na outra segunda. E no feriado, sem empregada, cuido da cozinha e dou uma geral muito de leve na casa.
A impressão é de que quando acabo uma coisa, já tem outra para fazer. E devo dizer que minha filha mais velha está ficando um pouco de lado, por ser a mais independente. O comentário sobre a dificuldade de se ter uma irmã bebê e uma avó com perna quebrada já revela isso.

Mas nos dias em que minha mãe acorda bem, sem reclamações, ou nenhuma outra coisa me incomoda, toda esta rotina fica mais leve, e levo tudo com muito bom-humor. Mas quando chora ou se lamenta muito, ou algo sai do meu controle, a reação é em cascata: fico nervosa, perco a paciência com tudo e com todos. É difícil ver alguém que gostamos sofrer, por mais que isso seja parte da atual conjuntura e não possamos fazer muito além de dar analgésicos.

Ontem pela manhã minha filha fez um desenho que continha uma menina (ela disse que era a prima), um arco-íris e um sol de mau-humor. Desconfio que eu sou o sol.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Calote


Vou ter que confessar: dei um calote involuntário no mercadinho da esquina.

Fiz uma pausa em meus afazeres e dei uma fugida para providenciar os lanchinhos de carnaval, pizza, cachorro-quente, sorvete, enfim, só bobagem. Mas a gente merece, pelo menos de vez em quando.

Peguei um sorvete na entrada, daqueles de casquinha, e guardei o código de barras no bolso da calça para pagá-lo na saída. Mas um presuntinho aqui, uma muzzarela ali, conta paga, bolsa cheia, sol no côco e eis que me lembro da dívida já na esquina de casa. Juro que parei e cogitei voltar, mas o peso das sacolas, o calor e a proximidade de casa me detiveram. Vou ficar devendo esses R$4,50...

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Tempo

Pois é. Nada na vida como tempo para nos ensinar e a prática para ajudar.

Na noite em que deixei minha mãe no hospital cheia de dores não consegui pensar em nada a fazer senão chorar. Quem ficaria com ela? E a festa da minha filha, marcada para dali a quatro dias? Quem cuidaria dela durante a longa e cansativa recuperação? Quem cuidaria das minhas filhas? E o meu trabalho? Tantas coisas a resolver, internação, material para cirurgia, fisioterapia domiciliar, reembolso da ambulância e do anestesista, remédios caríssimos e injeções diárias, quem aplicaria?

Bem, posso dizer que hoje, exatas duas semanas depois, tudo foi se resolvendo. Minha prima e uma amiga dormiram com ela no hospital, consegui adiar a festa sem dificuldades, tirei 60 dias de licença, e o restante estou ajeitando aos poucos. Cuido dela e das crianças com a ajuda da minha super empregada, pau para toda obra e pessoa boníssima. De vez em quando aparece aqui uma boa alma para dar uma mãozinha, e são inúmeras as pessoas que ligam ou mandam mensagens otimistas.

Tudo na vida é aprendizado. Estou satisfeita de ver que com fé e boa vontade se caminha mais facilmente. Só não gosto de vê-la com dor.